sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Injustiça e Desordem
Em artigo recente o escritor Luiz Fernando Veríssimo, discorreu com a graça de sempre sobre as ações do MST e decisões de setores da justiça com tendências a criminalizar o movimento, o que me acordou a célebre frase de Goethe em que o dramaturgo e advogado alemão afirmou preferir uma injustiça à desordem. Desconheço, e me socorram se alguém souber, a quantas, em que situações e a quais injustiças Goethe se referia. Mas... São assim os pensadores geniais: Lançam ao léu sementes que vitalizadas pela compreensão gerada pelo conhecimento germinarão, às vezes, muitas gerações após. Por outro lado, também é preciso lembrar que, no contexto em que foi proferida a sentença do pensador alemão, sua postura foi influenciada talvez tanto pelo conservadorismo próprio da maturidade quanto pelos desmandos da fratricida Revolução Francesa, a qual se viu, depois do caos “democrático”, desembocar no personalista regime ditatorial de Napoleão. Uma França com fome, medo, confusa e banhada pelo seu próprio sangue, em última instância, optou por retornar à autocracia. Tem-se querido acreditar, seja por pendores partidários ou necessidades eleitorais ser inconveniente julgar injustas as ações dessas gentes de bonés e bandeiras vermelhas, descendentes ideológicos modernos das famélicas comunas francesas. Outra curiosidade é que ao sair de cena sem explicar exatamente o que teria querido significar com a frase controversa, Gothe deixou órfã tanto Direita quanto Esquerda, a digladiarem interminavelmente nos últimos dois séculos a respeito de qual das duas (desordem e injustiça) teria nascido primeiro e o que poderia ser preferível e mais justo. Discussão monótona e estéril, me parece, pois que uma e outra são interdependentes e fazem parte de diferentes enfoques da mesma realidade assim como os dedos, embora separados, são partes da mesma mão Ora, o MST é meramente o resultado de desequilíbrios sociais e culturais. De tal forma deve ser tratado e não como fruto de “injustiças” cometidas por alguém e que devam “ser cobradas até a terceira geração” de supostos responsáveis. A vida está repleta de exemplos assim. O perfume e os espinhos das rosas não são justos nem injustos, apenas existem por necessidade evolutiva. Suas presenças são um fato e isso, por si só, os justifica. Já a atuação do MST deverá ser julgada pela legislação temporânea comum e essa pertence (o Sr. Pedro Stédile bem o sabe) a quem quer que seja que tenha forças para impô-la e defendê-la do jeito que puder e enquanto puder. O instinto e a necessidade de sobrevivência criam sua própria ética. Crianças tem sido usadas como escudos como arma política por toda história moderna e provavelmente de toda a evolução humana. Ela mesma (a história) tem demonstrado que a conquista material se dá pela negociação e, se necessário, invariavelmente pela força. O MST e o Sr Pedro Stédile não passam apenas de um caso simples de insubordinação legal. Existem apenas por falta de autoridade, só isso.
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