quarta-feira, 24 de março de 2010

IDEAIS
("68, um bom tempo talvez...")


Não tenho existido,
Nunca,
Como gostaria de ser,
Nem como gostariam
Que eu tivesse sido,
Ou, sequer,
Por pouco,
Como poderia ter sido.

Sempre esperei tanto
De mim mesmo...
E esperaram, todos,
Tanto,
Que se tivessem sido possíveis
As nossas vontades
Não caberiam essas lidas
Em cada uma de nossas vidas.

E nossos ideais,
Você viu?...
O que sucedeu
Com nossos ideais?
Sei lá!!!
Só sei
Que fomos ficando por aí,
Bobos iguais,
Bagagens à mão,
Extáticos,
Em estações
Que os trens não passam mais...
IMPERDOÁVEL

Há algumas coisas
Que deveriam ser imperdoáveis
Diante às quais,
Nenhum’alma não se cala:

Olhos que se perdem
No horizonte enquanto você fala,
A mão estendida que se deu
E ninguém recebeu,
O olhar que fere
Vindo de quem você ama...
Mas, sem dúvida,
Nada tem mais poder de machucar
Do que o desdém de sua dama.
PERDOÁVEL

Perdoa-me!
Não te indignes
Nem me subestimes.
Foi o enlevo de instantes
Que me trouxe a descoberto
Sem tempo para freios...
Não entendestes
O gesto irresoluto da emoção
Quando deitei atos ardentes
Sobre a laje fria de tua razão.

Perdoes-te!
A razão simples do fracasso,
Se houver,
É sempre me quereres
Mais em tuas mãos
Do que em teus braços.
ÀS VEZES
(Revisitando Descartes)

Eu sei da minha existência
Não por que penso,
Ou porque existo,
Mas por que assisto
Todos os dias
Seu testemunho
Nos olhos dos outros
Que de mim
Trazem notícias.
Ora,
Então,
Não me peças
Para ser razoável,
Não é justo comigo
Nem com teu coração.
A vida é etérea
E volátil,
Às vezes pétrea,
Frequentemente amável,
Às vezes,terrível.
A alma também é como ela:
Feita de meias verdades
Imponderável,
Pois que,
O sim de hoje,
Amanhã pode ser não.
Por isso,
Tudo é improvável
Mas, por outro lado,
Também,
Convenhamos,
Se tem que ser assim,
Nada é impossível...
QUERERES

Não quero
O que você me mostra,
Não quero
O que queres que eu veja!
Não quero, também,
O que queres que eu escute!
Quero um outro lado:

Quero
O suor selvagem
Com cheiro de gosto amanhecido
No teu cabelo desmantelado.
Eu quero
A paisagem de que poucos bebem,
A flor que ninguém conhece;
Quero muito mais,
Quero além:
Quero o sentimento adormecido
De que nem tua maquiagem esquece...
QUERERES

Não quero
O que você me mostra,
Não quero
O que queres que eu veja!
Não quero, também,
O que queres que eu escute!
Quero um outro lado:

Quero
O suor selvagem
Com cheiro de gosto amanhecido
No teu cabelo desmantelado.
Eu quero
A paisagem de que poucos bebem,
A flor que ninguém conhece;
Quero muito mais,
Quero além:
Quero o sentimento adormecido
De que nem tua maquiagem esquece...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Voar
Nós somos feitos da mesma matéria, surgimos do mesmo sopro e no entanto, já foi dito, somos como se fôsse-mos uns para os outros a outra margem do rio. Fillhos do mesmo milagre, nascemos juntos como gêmeos univitelinos, respiramos o mesmo ar, bebemos da mesma água e, embora nos vejamos e nos possamos tocar, continuamos tão distantes e separados como se algum obstáculo intransponível se dispusesse entre nós e pertencesse-mos a universos distantes e inatingíveis. Dizem alguns que isso é normal e inevitável. Alardeiam outros quenão é assim, que algumas boas intenções e belas palavras de ordem, outras vidas, orações e até mesmo dietas podem vencer tal muro. Mas não nos deixemos levar pelas aparências: Isso é real, tem nome e substância, se compõe do mesmo substrato do qual fomos feitos e nos tornamos pelas contingências da vida. Somos nós, egos isolados, lutando para sobreviver e chama-se SOLIDÃO ou, mais propriamene, "solitude". Contudo, tal estado esquizóide, embora seja corriqueiro, não é obrigatório. Você, amiga (o) já percebeu, por acaso, que quando paramos de pensar e discutir conosco mesmos, sentimos ternura essa e distância some? Não? Então tente, vale à pena!
Abraços